O dia 5 de maio de 2020 assinala o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) oficializou a data no ano passado, contudo desde 2009 que o dia 5 de maio é comemorado como o Dia da Língua e da Cultura Portuguesa, instituído pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).


O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, 3,7% da população mundial. É língua oficial dos nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e Macau, bem como língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, União Africana ou o Mercosul.


O Secretário-Geral das Nações Unidas no seu discurso de comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa afirmou que a proclamação deste dia como "Dia Mundial da Língua Portuguesa é o justo reconhecimento da sua relevância global" e destacou ainda a diversidade e multiculturalidade.


Durante o dia 5 de maio, devido à Pandemia do COVID 19, decorrerão vários eventos virtuais para comemorar esta data tão importante para a comunidade lusófona, nomeadamente o evento do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com a CPLP, a UNESCO e a ONU News que organizaram um evento comemorativo online composto por uma cerimónia e por um concerto “online”, em que participam duas dezenas de personalidades lusófonas das áreas da política, letras, música ou desporto. O vídeo do evento encontra-se abaixo.





Poemas e trechos de livros de grandes poetas, músicos e escritores dos países da CPLP:




Angola


Poesia "De Mãos Vazias" de Jofre Rocha


De Mãos Vazias

As mãos trago-as vazias

só nos olhos conservo o sonho.

e no íntimo

guardo recordações amargas

do género dito humano.

as mãos trago-as vazias

mas volto rico de presentes

para todos vós, camaradas.

minha bagagem de escravo forro,

ei-la:

um punhado de folhas soltas

contendo meus versos tristes

sabendo a fome e maresia.

as mãos trago-as vazias

e minha bagagem são só versos tristes…

mas para vós, camaradas

trago um peito aberto

para as dores do nosso sofrer

trago os braços abertos

para a solidariedade dum abraço.

volto de mãos vazias

de mãos vazias sim, camaradas

mas nos olhos conservo o sonho.


Brasil

Trecho do livro Grande sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa:

"[...] Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente ? o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura[...].


Cabo Verde

Música "Sodade" de Cesaria Évora


Sodade

Quem mostrava esse caminho longe?

Quem mostrava esse caminho longe?

Esse caminho pa São Tomé

Quem mostrava esse caminho longe?

Quem mostrava esse caminho longe?

Esse caminho pa São Tomé

Sodade, sodade

Sodade dessa minha terra, São Nicolau

Sodade, sodade

Sodade dessa minha terra, São Nicolau

Quem mostrava esse caminho longe?

Quem mostrava esse caminho longe?

Esse caminho pra São Tomé

Quem mostrava esse caminho longe?

Quem mostrava esse caminho longe?

Esse caminho pra São Tomé

Sodade, sodade

Sodade dessa minha terra, São Nicolau

Sodade, sodade

Sodade dessa minha terra, São Nicolau

Se vou escrever muito a escrever

Se vou esquecer muito a esquecer

Até dia que vou voltar

Se vou escrever muito a escrever

Se vou esquecer muito a esquecer

Até dia que vou voltar …


Guiné-Bissau

Poesia "Nas noites de n'djimpol" de Helder Proença


Nas noites de n’djimpol

Nas noites de N’djimpol

vi a virtude dos homens sem amanhã...

légua a légua

conquistando o caudal do futuro.

Vi-os nas ondas tenebrosas

enfrentando e conquistando!

Vi braços robustos e livres

sonho campos loiros

espigas dardejando ao sabor do vento

brisas e pássaros cantando

sol e flautas beijando o suor fecundante.

Nas noites de N’djimpol

Vi a virtude dos homens sem amanhã...

légua a légua

conquistando o caudal do futuro...

Vi-os nas ondas tenebrosas

enfrentando e conquistando

Sim,

Vi nas noites de N’djimpol

sonho mamãe terra

sonho compassos rítmicos no capinzal

dilatando a fé do homem-terra

o horizonte e o brilho das nossas mãos.

Oiço o grito das brisas loiras...

na imensidão farta dos campos

sim mamãe terra

firmemente sonho

na certeza gritante

de sermos loiros e fortes

como espigas e o sol

fortes e loiros…

Mamãe terra

Sonho mas juramos-te!


Moçambique

Poesia "Clandestino" de Mia Couto


Clandestino

Na penumbra da tarde,

o mundo morto,

a meu passo, despertava.

Não era o amor

que eu procurava.

Buscava o amar.

Na casa em ruínas,

te despias

para que me deixasse cegar.

Voz transpirada,

suplicavas que te chamasse no escuro.

Em ti, porém,

eu amava

quem não tem nome.

Na casa arruinada

te amei e te perdi

como a ave que voa

apenas para voltar a ter corpo.

Na penumbra da tarde,

tu me ensinaste a nascer.

Na noturna claridade

me esqueci

que nunca havias nascido.


Portugal

Poesia "Não Digas Nada II" de Fernando Pessoa.


NÃO DIGAS NADA II

Não digas nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada se dizer

E tudo se entender —

Tudo metade

De sentir e de ver...

Não digas nada

Deixa esquecer

Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã

Toda essa viagem

 Até onde quis

 Ser quem me agrada...

 Mas ali fui feliz

 Não digas nada.


06/02/1931

Fernando Pessoa


São Tomé e Príncipe

Poesia "Para lá da Praia" de Alda Espírito Santo


Para la da Praia

Baía morena da nossa terra 

vem beijar os pézinhos agrestes 

das nossas praias sedentas, 

e canta, baía minha 

os ventres inchados 

da minha infância, 

sonhos meus, ardentes 

da minha gente pequena 

lançada na areia 

da Praia Gamboa morena 

gemendo na areia 

da Praia Gamboa.

Canta, criança minha

teu sonho gritante 

na areia distante 

da praia morena.

Teu teto de andala 

à berma da praia.

Teu ninho deserto 

em dias de feira.

Mamã tua, menino 

na luta da vida 

gamã pixi à cabeça 

na faina do dia 

maninho pequeno, no dorso ambulante 

e tu, sonho meu, na areia morena 

camisa rasgada, 

no lote da vida,

na longa espera, duma perna inchada 

Mamã caminhando p’ra venda do peixe 

e tu, na canoa das águas marinhas … 

 — Ai peixe à tardinha

na minha baía…

Mamã minha serena

na venda do peixe.


Timor-Leste

Poesia "Rota" de Fernando Sylvan


Rota

Não sei se o mar tem voz

Mas a sua voz

Desde pequeno me falava lento.

E eu via nele

O que não existia na memória.

Ninguém sabia

De meus avós e bisavós

Se era quadrado ou redondo

Se tinha vida ou não.

Mas sem saber se tinha voz o mar

Ouvia a sua voz.

E sem saber se tinha vida ou não

Sentia a sua vida.

Foi ele que me disse

Que havia Espaço e Tempo.

E comecei a viajar sem medo da viagem.

E nunca mais parei

Com medo da paragem.

Fernando Sylvan, in “7 Poemas de Timor”